Você sabe por que as baleias-jubarte estão aparecendo na costa do Sudeste do Brasil? Todos os anos, nesta mesma época, a presença de baleias-jubarte no litoral brasileiro chama a atenção de moradores, turistas e pesquisadores. Durante este período, os avistamentos se tornam frequentes e impulsionam atividades de ecoturismo voltadas à observação desses animais. Mas por que elas aparecem justamente agora? A resposta está em uma das características mais marcantes do ciclo de vida das baleias-jubarte, a migração.

 

As baleias jubartes são animais que realizam grandes migrações sazonais, indo de locais de alimentação para reprodução. Após o fim do período de alimentação elas migram deixando as águas frias até chegar à costa brasileira para iniciar a época de reprodução que ocorre durante o inverno austral. Elas se concentram principalmente na região do Banco dos Abrolhos, entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, importante área de reprodução da espécie. É nessa região que ocorre o acasalamento e, após um período de gestação de aproximadamente 11 meses, as fêmeas retornam na temporada reprodutiva seguinte para dar à luz e amamentar seus filhotes nas águas quentes da costa brasileira.

 

A escolha das águas tropicais para a reprodução não acontece por acaso, a ciência trabalha com diferentes hipóteses para explicar essa viagem, uma delas é que locais mais quentes favorecem a termorregulação dos filhotes que nascem com uma camada de gordura pouco desenvolvida. Nesse ambiente, o aleitamento com leite rico em gordura promoveria tanto o desenvolvimento do isolamento térmico quanto o acúmulo de reservas energéticas necessários à posterior migração. Contudo, essa explicação não deve ser considerada de forma isolada, outras hipóteses sugerem que a migração para essas áreas podem oferecer condições hidrodinâmicas mais favoráveis e reduzir o risco de predação. Além disso, fatores relacionados às demandas energéticas e ao comportamento dos adultos durante o período reprodutivo também podem contribuir para essa escolha.

Durante os meses de alimentação, elas permanecem em locais de águas mais frias, onde encontram maior disponibilidade de alimentos que compõem sua dieta, como o krill e pequenos crustáceos, nesse período elas acumulam reservas energéticas necessárias para sustentar a longa migração que realiza até locais de águas tropicais, que é onde ocorre a reprodução, nascimento dos filhotes e os primeiros meses de amamentação.

 

Ao final da temporada reprodutiva, as baleias-jubarte iniciam a viagem de retorno às áreas de alimentação. Os indivíduos que utilizam a costa brasileira como área de reprodução migram principalmente para as ilhas Geórgia e Sandwich do sul, no Atlântico Sul, próximas à Antártica. Nessas regiões, encontram disponibilidade de alimento como o krill, que faz parte de sua dieta. Durante esse período acumulam a energia necessária para sustentar a próxima migração reprodutiva.

Embora esse seja o padrão migratório mais conhecido para a população que utiliza a costa brasileira, existem registros de indivíduos em outras áreas de alimentação além das regiões tradicionalmente utilizadas próximas às ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. Uma hipótese para explicar esse acontecimento é que as mudanças que estão ocorrendo nos oceanos, como alterações na temperatura da água e na disponibilidade de alimento, possam influenciar a distribuição das áreas de alimentação e, consequentemente, os deslocamentos desses animais.

Nesse contexto de migração, a presença das baleias-jubarte na costa sudeste nesta época do ano faz parte de um fenômeno natural que se repete anualmente. Durante essa viagem, esses animais podem percorrer milhares de quilômetros entre as áreas de alimentação, próximas à Antártica, e as áreas de reprodução na costa brasileira. É por isso que durante o inverno austral os avistamentos se tornam mais frequentes ao longo do litoral.

Por servir de berçário e área de reprodução para as jubartes, a costa brasileira é peça-chave na conservação da espécie. Mas a relação é de via dupla, no mar, elas desempenham papeis ecológicos vitais; em terra, impulsionam a pesquisa científica e encantam pessoas, transformando-se em símbolos da sensibilização ambiental. Assim, compreender a jornada dessas baleias é entender que a sobrevivência delas depende diretamente da saúde do oceano que torna essa viagem possível.

 Autora: Bárbara Vitória de Andrade Carvalho.