Era madrugada no Atlântico Sul quando os equipamentos a bordo do navio Eco Warrior captaram algo que ninguém esperava. Nas profundezas escuras do oceano, a centenas de quilômetros do litoral nordeste do Brasil, um animal emitia um som. Um som agudo, preciso, diferente de tudo o que já havia sido registrado para qualquer baleia-de-bico no mundo. Ninguém viu o animal. Ninguém sabe exatamente o que ele é. Mas ele estava lá — e deixou sua assinatura acústica gravada nos hidrofones do Instituto Aqualie.

Esse momento, ocorrido na madrugada de 8 de março de 2020 e repetido novamente em 2 de julho de 2025, resultou em uma das descobertas mais intrigantes já feitas por pesquisadores brasileiros no campo da bioacústica marinha. O estudo, publicado em 2026 na revista científica internacional Marine Mammal Science — uma das mais respeitadas do mundo na área de mamíferos marinhos —, apresenta o BW90: o sinal acústico de maior frequência de pico já registrado para uma baleia-de-bico em qualquer oceano do planeta.

Os autores do artigo são pesquisadores do Instituto Aqualie e do Laboratório de Ecologia Comportamental e Bioacústica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF): Natália Rodrigues-Soares, Raphael Barbosa Machado, Yasmin Viana e Artur Andriolo. O trabalho pode ser acessado gratuitamente em: https://doi.org/10.1111/mms.70161

Figura 1 do artigo — Perfil acústico do BW90: formas de onda, distribuição Wigner-Ville e espectro de potência das detecções D01 e D02. Fonte: Rodrigues-Soares et al., Marine Mammal Science, 2026.

Um som jamais ouvido antes

As baleias-de-bico (família Ziphiidae) estão entre os mamíferos mais misteriosos do planeta. Mergulhadoras profundas e esquivas, passam a maior parte do tempo a centenas ou milhares de metros abaixo da superfície e raramente são avistadas. Para estudá-las, cientistas recorrem a uma técnica chamada monitoramento acústico passivo (PAM): ao invés de procurar o animal com os olhos, ouve-se o oceano com hidrofones altamente sensíveis.

Foi exatamente essa abordagem que permitiu a descoberta do BW90. Utilizando um array linear de 300 metros com quatro hidrofones omnidirecionais, rebocados a cerca de 5 metros de profundidade e operando a uma taxa de amostragem de 500 kHz, a equipe do Instituto Aqualie capturou dois eventos acústicos distintos — com cinco anos de diferença, em locais separados no Atlântico Sudoeste equatorial e nordeste do Brasil.

O nome BW90 segue a convenção científica internacional para sinais acústicos de baleias não identificadas: “BW” vem de beaked whale (baleia-de-bico em inglês), e “90” refere-se à frequência de pico do sinal: aproximadamente 90 kHz. O limite superior da audição humana é de cerca de 20 kHz. O BW90 está muito além do que nossos ouvidos conseguem perceber — mas os hidrofones do Instituto Aqualie ouviram.

Quando identificamos esse sinal pela primeira vez, percebemos que ele apresentava características incomuns em relação aos padrões já descritos para baleias-de-bico. A frequência observada era mais alta do que os registros disponíveis na literatura. Isso nos levou a investigar cuidadosamente o sinal, revisar os dados de forma criteriosa e considerar diferentes possibilidades antes de concluir que se tratava de um registro inédito. — Natália Rodrigues-Soares, pesquisadora do Instituto Aqualie

Dois registros, cinco anos de distância, o mesmo mistério

A primeira detecção (D01) aconteceu na madrugada de 8 de março de 2020, entre 00h46 e 00h52, a aproximadamente 213 metros do array acústico, ao largo do litoral nordeste do Brasil. Foram registrados 313 pulsos FM (modulados em frequência) e 3 cliques de ecolocalização sem varredura espectral.

A segunda detecção (D02) ocorreu em 2 de julho de 2025, entre 22h07 e 22h11, a cerca de 90 metros do array acústico, na margem equatorial brasileira. Dessa vez, 65 pulsos FM (modulados em frequência) foram capturados.

Apesar da distância geográfica e do intervalo de cinco anos entre os registros, a análise estatística multivariada revelou sobreposição entre os dois conjuntos de sinais — indicando com alto grau de confiança que ambas as detecções correspondem ao mesmo tipo de sinal e, muito provavelmente, à mesma espécie de animal.

Figura 2 do artigo — PCA das características acústicas dos cliques para D01 e D02. A sobreposição substancial sugere a mesma espécie. Fonte: Rodrigues-Soares et al., Marine Mammal Science, 2026.

“A consistência entre os dois registros foi um dos aspectos mais importantes do estudo. Quando você tem dois eventos acústicos tão similares, coletados em condições diferentes, em anos diferentes, em locais distintos — isso não é coincidência. Isso é padrão. E padrão, na ciência, é informação.” — Artur Andriolo, Instituto Aqualie

Quem é esse animal? O mistério das profundezas

A pergunta que intriga a comunidade científica é: qual espécie produz o BW90? A resposta honesta, por enquanto, é: não sabemos. E essa incerteza, longe de ser uma limitação, é em si mesma uma descoberta extraordinária.

Para tentar estimar o tamanho do animal a partir do som que ele produz, os pesquisadores do Instituto Aqualie aplicaram uma regressão linear log-log entre frequência de pico e comprimento corporal de todas as espécies de baleias-de-bico com dados disponíveis na literatura. A relação é clara e estatisticamente robusta (R²=0,79; r=−0,88; p<0,001), confirmando que quanto menor o animal, mais agudo é o seu som.

Com base nesse modelo, a frequência de 90,4 kHz do BW90 corresponde a um animal de aproximadamente 3,23 metros de comprimento (IC 95%: 2,69–3,98 m) — menor do que qualquer baleia-de-bico conhecida.

Figura 3 do artigo — Relação entre frequência de pico e comprimento corporal das baleias-de-bico. Ponto verde = BW90 estimado em ~3,23 m. Fonte: Rodrigues-Soares et al., Marine Mammal Science, 2026.

“Isso nos leva a uma hipótese fascinante: o BW90 pode ter sido produzido por um adulto de uma espécie de baleia-de-bico de pequeno porte que ainda não foi descrita pela ciência.” — Natália Rodrigues-Soares, Instituto Aqualie

O som como ferramenta de conservação

A descoberta do BW90 vai além do fascínio científico. Ela tem implicações diretas para a conservação das baleias-de-bico no Brasil — animais que vivem em águas onde ocorrem levantamentos sísmicos para prospecção de petróleo e gás. As baleias-de-bico estão entre os cetáceos mais vulneráveis ao ruído antropogênico subaquático, e um animal desconhecido não pode ser protegido.

“O monitoramento acústico passivo está transformando nossa capacidade de conhecer e proteger espécies que jamais conseguiríamos estudar de outra forma. Uma baleia que nunca é vista pode ser ouvida por nossos sistemas. E um animal que não conhecemos não pode ser protegido. Por isso, descobertas como essa do BW90 são fundamentais não apenas para a ciência, mas para a conservação.” — Artur Andriolo, Instituto Aqualie

O Instituto Aqualie e a ciência que vem de Juiz de Fora

Sediado em Juiz de Fora, Minas Gerais, o Instituto Aqualie é uma das principais referências do Brasil em pesquisa, conservação e educação voltadas a mamíferos aquáticos. Em parceria com o Laboratório de Ecologia Comportamental e Bioacústica da UFJF, o Instituto conduz campanhas de monitoramento acústico passivo em águas profundas do Atlântico Sul, gerando dados de alta relevância científica e conservacionista.

A publicação na Marine Mammal Science representa um marco para a instituição e coloca os pesquisadores brasileiros no centro de um debate científico global sobre a biodiversidade ainda desconhecida dos oceanos profundos.

O que vem a seguir

Os próximos passos da pesquisa envolvem ampliar o monitoramento acústico na região, buscar novos registros do BW90 e tentar associar o sinal a um animal identificado visualmente ou geneticamente.

“Cada novo registro que obtivermos nos aproxima de entender quem está produzindo esse sinal. Esse processo pode levar anos. Pode levar décadas. Mas a ciência funciona assim — com paciência, rigor e monitoramento contínuo de muito tempo no oceano. E o Instituto Aqualie estará lá.” — Natália Rodrigues-Soares, Instituto Aqualie

Por enquanto, nas profundezas do Atlântico brasileiro, um animal pequeno e desconhecido continua emitindo seus cliques agudíssimos — indiferente à revolução científica que está provocando.

Artigo completo: https://doi.org/10.1111/mms.70161 | Site: aqualie.org.br | Instagram: @instituto_aqualie